Sobre leões e corações

Cannes. Caboré. El Ojo. Clio. Colunistas. Londres. Nova Iorque. FIAP. Abril. CCSP.
Eu te desafio a parar qualquer pessoa na rua e perguntar a ela o que significa ao menos uma dessas coisas. Você também não sabe? Pois é.

Há décadas, o mercado da comunicação é movido por um curioso e preocupante vício: os tão superestimados, super valorizados e super perseguidos prêmios. Curioso porque ainda não consegui compreender como é possível que até os dias de hoje os profissionais ainda não tenham se dado conta do tamanho do ciclo vicioso que isso se tornou. E preocupante pela mesma razão. Há agências que cultivam núcleos exclusivos e específicos para a criação e desenvolvimento de projetos apenas com este intuito. Creiam. É como se fosse uma realidade paralela ao mundo lá fora, tipo um “Matrix” mesmo.

Prêmios trazem notoriedade, credibilidade. Põem em evidência. Geram visibilidade. Visibilidade nutre o ego. Bingo! Chegamos em um dos pontos mais delicados deste mercado. E pra completar, credibilidade e visibilidade juntas, nutrem a conta bancária. E aí, meu amigo, não tem esse ser humano que resista, né?

Mas além de curioso e preocupante, acho que o pior adjetivo que poderíamos usar aqui seria triste. É triste ver isso tudo acontecer tão de perto. É triste ver tanto talento descendo ralo abaixo por motivações tão fúteis.
“Não importa se funciona, importa se impressiona.” Até mesmo a ambição de vender cada vez mais fica em segundo plano. O importante é ser bonito. E atrativo. E criativo. E inovador. O importante é ganhar o leão. E lustrar todo dia pra brilhar bastante na prateleira da sala de reunião.

Mas se de um lado desta moeda temos leões raivosos por novos leões, do outro temos corações partidos, frustrados, (sub)nutridos por long necks, pizzas e ansiolíticos.

O que te faz levantar da cama pela manhã? O que te faz nem ir pra cama em muitas ocasiões? Na roda-viva do mercado publicitário, o mais comum é nem se ter tempo pra pensar nessas coisas mesmo. E assim vamos, ferindo e anestesiando, dia após dia, os corações ansiosos por uma resposta que faça o mínimo de sentido.

E no afã de buscar sentido, nos perdemos nas comparações externas, na perseguição eterna pela aprovação alheia, na caça indiscriminada pelo status social. Mas se eu pudesse falar só uma coisinha pros meus colegas que se enxergam nessa situação, se eu pudesse dar uma dica, uma palavra de carinho que fosse, eu diria: Migos, deixa eu contar uma coisa procêis? Tá tudo aí dentro.

Você não precisa subir naquele palco pra mostrar pro mundo o profissional foda que você é. Você não precisa ter seu nome na ficha técnica pra comprovar que a ideia original daquele job incrível foi sua. O que é bom mesmo, atrai. E o que só tem capa, invariavelmente morre em algum lugar da estrada.

Acredite: o mundo precisa muito mais de você do que os auditórios dos festivais.

O mundo precisa do seu talento. Propósitos nobres, elevados e transformadores te aguardam. Negar isso é negar o valor da sua própria existência. Acredite: sua essência vale muito mais do que qualquer adereço de prateleira.

Por um mercado com mais valorização de corações – e menos de leões.